terça-feira, 22 de setembro de 2009

todos os meus vícios estão virando poesias
poesias de um anjo decaído
que agora voa com novas asas

sábado, 5 de setembro de 2009

acordei com uma puta sobre meu corpo
com uma puta de uma ressaca
parece que adormeci lendo Clarice Lispector
o livro aberto sobre a cama faltava uma página
não me lembro bem
mas acho que fumamos ela
afinal de contas
algumas coisas são pra ler
outras, pra fumar
as paredes do meu quarto assistem comigo
o movimento de rotação e translação
que faz meu quarto girar
e sorrindo me lembrei de Cazuza
dizendo que o banheiro é a igreja de todos os bêbados
é, eu também ando tão down
pensei em ascender um cigarro
só os inbecis fumam sem motivo
onde estará ela?
há tanto tempo não nos vemos
ou será que foi ontem?

quarta-feira, 12 de agosto de 2009


Com a boca ressaquiada acendo um cigarro por indiferença. Sobre a escrivaninha estão um cinzeiro, um colírio, folhas amareladas com poesias esquecidas e um crachá. A noite fria de agosto traz lembranças de algo que não sei de onde vem, nem pra onde vai, fica bem aqui, como se esse algo bem aqui não soubesse também pra onde ir. Talvez sejam lembranças de um cadáver recente. Sentimentos insólitos perturbam minha alma. Num livro que descansava na última prateleira da encanecida biblioteca descobri que o amor foi estuprado. O sentimento agora hesita com olhos arregalados à sombra da masturbação. A loucura saiu de moda, virou tendência. De volta aos bares, entre amigos que não me conhecem, minha alma indiferente, acende outro cigarro, assustada com as novas epidemias sociais...

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

o espírito do poeta

ele zombava de sua própria morte
com uma garrafa empoeirada de um vinho barato
ao som do blues declamava
uma improvável e intocável poesia
diante da imortalidade de sua alma
falava sobre si
sobre seu sexo e seus distúrbios psicológicos
sobre seus passos que não eram passos
eram surtos aprisionados num corpo mortal
que lhe fazia ver somente o que não fosse crime
agora livre, sacudiu o pó da alma
favorável a tudo que lhe condene
clamava pela loucura de sentimentos voláteis
um espírito embriagado de poesias plurais
a desprezar os pobres corpos mortais...

segunda-feira, 22 de junho de 2009


quisera eu entender
a minha própria busca
a busca de poesia, terapia e filosofia

nos bancos das praças
o bom da noite
o dom da noite
onde estão os mágicos
andarilhos, mendigos e hippes

aqueles que não vivem nos tempos
dos relógios de 24 horas
aqueles que dormem sob os bancos
sobre os quais fazem seus comícios
aqueles que comem seu pão na calçada
e que andam descalços pela madrugada

nas noites, ruas e bares
as vagabundas ou bundas vagas
mulheres mal amadas e mal pagas
em meio a boemia, a maresia, a putaria

e, onde estão os loucos para um discurso?
onde estão os loucos para um curso?
que nos ensine poemas para declamar
que nos ensine simplesmente, amar...

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O Açúcar (Ferreira Gullar)


O branco açúcar que adoçará meu café
Nesta manhã de Ipanema
Não foi produzido por mim
Nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
E afável ao paladar
Como beijo de moça, água
Na pele, flor
Que se dissolve na boca. Mas este açúcar
Não foi feito por mim.

Este açúcar veio
Da mercearia da esquina e
Tampouco o fez o Oliveira,
Dono da mercearia.
Este açúcar veio
De uma usina de açúcar em Pernambuco
Ou no Estado do Rio
E tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
E veio dos canaviais extensos
Que não nascem por acaso
No regaço do vale.

Em lugares distantes,
Onde não há hospital,
Nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome
Aos 27 anos
Plantaram e colheram a cana
Que viraria açúcar.
Em usinas escuras, homens de vida amarga
E dura
Produziram este açúcar
Branco e puro
Com que adoço meu café esta manhã
Em Ipanema.

quarta-feira, 10 de junho de 2009



...o tempo não está se esgotando.
o tempo está sempre ali.
é você que está se esgotando,
que está indo embora,
correndo rápido demais.
vá com calma.
o tempo é a única coisa
que ninguém tira de nós.

quisera eu entender
a preocupação cumpulsiva,
as unhas roídas
e a gastrite erosiva.

quisera eu entender
o porquê...
porque estou me esgotando,
correndo rápido demais,
se o tempo está sempre ali.

a graduação visando
a pós graduação.
estudar, trabalhar,
ganhar títulos para
pendura-los na parede.

fazer filhos, construir.
talvez seria um bom motivo
para permanecer pra sempre
na terra, correndo
contra o tempo...

onde está minha calma,
onde encontra-se minha alma?
alma sem corpo,corpo sem alma
alma de louco, louco por calma.
clamando por poesias,
que me permitam fantasias.

fantasias nas quais
o tempo respeite o
meu tempo
pois estou me
e s g o t a n d o . . .